“Born to be wild”. Ou em bom português: “Nascemos para ser selvagens”. O verso, entoado e tornado mundialmente conhecido pela banda norte-americana Steppenwolf, faz parte de uma canção que virou hino dos motociclistas ao redor do planeta. Mas até onde vai esta “selvageria”? O que as roupas pretas, tatuagens, brincos, cabelos e barbas longas escondem por trás de si? Será que realmente aqueles caras ‘mal-encarados’ são do mal? O Portal Correio foi conhecer um pouco mais do mundo do motoclubismo em João Pessoa e conversou com representantes de dois clubes diferentes para saber como é o cotidiano, a relação com os seus veículos e como eles tratam dessa questão de como são vistos pela sociedade. Veja fotos e vídeo abaixo.
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A conversa, previamente agendada, aconteceu em uma bar no bairro do Cristo Redentor, em João Pessoa, capital paraibana. O local é sede do Kansas Clube Leões do Asfalto, o KCLA, Motoclube (MC) com quase 10 anos de existência. Ao chegar ao local, o repórter, este que vos fala, encontrou inúmeras motos estacionadas, pouca iluminação e um bando de caras e mulheres vestidos de preto exibindo seus coletes e brasões. Ao fundo, o bom e velho rock and roll era quem embalava o som do ambiente.
Confesso que fiquei receoso do que me esperaria, por estar entrando em um território desconhecido até então para mim. Fui procurar a pessoa com quem tinha agendado a entrevista e saí perguntando por ele. “Alguém sabe onde está Thayrone?”, indaguei. A resposta foi simples. “Está ali. Vem cá, Cigano. Ele está te procurando”. De cara, já percebi: eles se tratam com codinomes. Thayrone, ou melhor, Cigano chegou, puxamos duas cadeiras e começamos a conversar. Logo nas primeiras palavras, já percebi que o receio era à toa.
Cigano é diretor social do Bradadores, outro Motoclube de João Pessoa, com apenas três anos de existência e que até pouco tempo atrás se chamava Destino Certo. Ele explicou como funciona o motoclubismo, desde suas diretrizes ao organograma. Ao todo, o Bradadores tem 16 membros, sendo quatro da diretoria, composta por um presidente, um vice, uma diretora financeira e um diretor social, dois escudos fechados, três meio escudo e sete prósperos. Mas que denominações são essas? Ele explica.
“Para ser da direção tem que ser escudo fechado, que é quando se compõe as três peças do brasão do clube, que é o caso do meu colete. Os MC tradicionais são reconhecidos por ter o patch dividido três partes, o nome do clube, o nome da cidade, e o brasão. O meio escudo não tem o brasão no meio. Ele era próspero e subiu de nível. Os prósperos são a primeira etapa. Eles são responsáveis por alguns afazeres. Por exemplo, em um churrasco, ele se oferece para limpar, arrumar as coisas. Quem se oferece, já ganha ponto. É para ver se o cara está disposto. É um período, não é eterno. Se fizer certinho, com seis meses, acabou”, explicou para, em seguida, concordar quando perguntado se o próspero é uma espécie de estagiário.
Hierarquias de lado, qual é a essência de um MC? Para que aquele monte de cara se reúne. O que os rege? Segundo Cigano, a principal diretriz de um Motoclube é a lealdade.
“Um MC preza pela irmandade. Todo mundo unido, uma família. O respeito pela moto, pelo brasão, por outros clubes. Todo mundo se ajuda. É uma família. No que precisar contar, estaremos aqui ajudando. Teve membro que se acidentou de noite e a gente saiu de casa e foi ajudar o cara. O que acontecer no clube, a gente vai e ajuda”, disse.
Gordo, presidente do KCLA, faz das palavras de Cigano as suas. Para ele, o motoclubismo vai muito além de uma turma reunida para andar de moto.
“No motociclismo existem varias ramificações. O mototurismo, o próprio motociclismo em si, mas a gente trabalha o motoclubismo. No KCLA, qualquer um que estiver aqui escudado, trocaria um braço e uma perna por minha vida. Não só a minha, mas de qualquer outro membro escudado. O motoclubismo é uma família, não é um grupo de amigos que gosta de viajar, não é só isso. É realmente uma família. A gente se ajuda, se respeita, existe hierarquia, lealdade a cada integrante. Existem várias fases. Para chegar a ser escudo fechado é um longo processo, não é rápido. Essa é a diferença do motoclubismo”, completou.
Motocicleta como membro da família
Lealdade, irmandade e família são palavras que por muitas vezes foram repetidas durante a entrevista. Ficou claro, que em que um componente de clube precisar, outro estará lá para ajudá-lo. Porém, há um outro membro primordial nestas famílias: a motocicleta. Para alguns, ela é mais importante do que a própria esposa. Para outros, ela é a própria esposa, ou até uma amante, como no caso do próspero Guarda, do Bradadores. “Eu sou casado, mas a minha moto é minha amante”, relatou.
E o ciúme, às vezes, vai muito mais além do que com um cônjuge, chegando inclusive a ser praticamente intocável, como no caso de Bola, membro do KCLA.
“A minha moto é minha vida. Se um irmão do meu clube precisar dela, está disponível. Mas não é para qualquer um. É para o presidente, uma diretora, alguém que zele por ela. Eu nunca disse ‘não’ para ninguém do meu clube para andar na minha moto, mas já dei muitos ‘nãos’ para gente que é meu amigo de fora, mas que eu vejo que não sabe ter carinho, sabe só andar de moto. Para ele é só um pedaço de ferro, não é uma moto. As vezes você pega tanto carinho pela coisa que não é para estar qualquer um sentado em cima. A gente defende muito isso. Não libero para todo mundo. Hoje ela está restrita a irmão de clube andar nela. Amigos nenhum”, disse.
A ideia é compartilhada pelo presidente do clube, Gordo. “É nosso bem mais precioso, é aquilo que nos completa na estrada. A gente sem ela não é motociclista. Ela é a parte mais importante para a gente estar no meio, é tanto que é uma alegria quando um troca de moto, a festa é grande, é uma questão de amor. Muitos aqui gostam mais de que a mulher. Faz parte da família”, relatou.
E com todo esse amor e dedicação, não poderia faltar cuidado com os veículos. A preocupação com a segurança no trânsito é grande, principalmente quando partem em uma viagem.
“A gente respeita a moto, os limites dela. É tudo bem cuidada, lavada. Não deixamos ao relento. Muitos deixam de viajar porque a moto está faltando alguma revisão, porque não teve dinheiro naquele momento para fazer. A gente não viaja de qualquer maneira, sempre tem cuidado”, explicou Cigano.
A preocupação em seguir as regras do trânsito é tão grande que os que não o fazem não merecem receber a alcunha de motociclistas, e sim, motoqueiros.
“A gente considera um cara que é motoqueiro, que não tem consciência no trânsito. Ele pode ser o que for. Pode andar de cinquentinha, de mil cilindradas. Pode ter uma moto de cem mil reais ou uma de dois mil. Se o cara tiver consciência de andar na rua respeitando o trânsito, ele é um motociclista. E a gente diz um cara que é motoqueiro, que anda acelerando, empinando, fazendo esse tipo de coisa. A gente não liga se chamar a gente de motoqueiros, não vamos xingar, mas a gente fala mais em relação a esse tipo de atitude. Porque mancha a imagem da gente. Quando a gente faz uma viagem, todo mundo vai no ritmo de todo mundo. A gente sempre respeita o limite de velocidade menor. Se o cara tem uma moto que só vai ate 110, todo mundo só vai ate 110. Ninguém deixa ninguém para trás e se um parar, todo mundo para”, complementou Cigano.
Imagem perante a sociedade
Se dentro dos Motoclubes a filosofia é bem definida, para quem está de fora nem sempre é assim. Ainda há muito presente o preconceito para com eles. Séries de TV e filmes também servem para colaborar um pouco com a visão deturpada do motoclubismo. Não são raros os episódios em que os motociclistas foram julgados por suas aparências, tanto que eles já se dizem acostumados.
“A maior dificuldade é social. Porque com o crescimento de séries e documentários a respeito de motoclube, muita gente tem uma visão bastante deturpada da nossa imagem. É muito comum você parar ao lado de um carro e o cara subir o vidro do veículo com medo de a gente fazer alguma besteira. Até porque a própria imagem do cara na moto não é muito bem vista”, disse Foca, presidente do Bradadores.
Para Cigano, realmente há muitos olhares, porém, alguns deles são de admiração.
“Quando você está em uma moto, tem que ter o colete, nem que seja para ir à esquina. Então, quando a gente está no shopping, por exemplo, quando começa a andar, a gente vê alguns olhares, principalmente do pessoal mais velho. Já começa olhar, olha tatuagem, alargador, cabelo, barba. Tem olhar que é como se fosse admirando e tem uns que a gente ver que é repudiando. Mas é algo que a gente se acostuma. E com o uso do colete e tal, a galera entra e fica meio assim de usar o colete direto, mas depois você acaba se sentindo bem com ele. Geralmente quando alguém assiste a uma série dessa, a primeira coisa que foca é no tráfico de armas, nas mortes, no crime. Ele não vai ver a lealdade do cara, a irmandade do clube”, explicou, citando uma série de TV bastante popular que trata sobre o motoclubismo.
Como reverter essa imagem?
Apesar de se dizerem acostumados com o preconceito, os motociclistas tentam mudar a imagem a que lhe atribuem. Uma das formas que eles buscaram para fazer isso foi através de ações sociais. Recentemente, o Bradadores, juntamente com outros Motoclubes realizaram uma ação na Vila Vicentina, asilo localizado em João Pessoa. Na ocasião, eles levaram mantimentos para os idosos e proporcionaram uma tarde diferente para eles.
Para Foca, além da importância de mudar a própria imagem, tem o fato de poder ajudar pessoas desconhecidas.
“É importante. Não só para mudar a imagem da gente. Existe uma necessidade, se a gente pode contribuir, trabalhando com doações, querendo ou não a gente faz parte de um grupo que tem que se estabelecer na nossa região e tem que fazer por onde. Não pode só se juntar e sair pela cidade fazendo cara feia”, relatou.
Cigano relatou que o Bradadores realizam pelo menos quatro ações destas por ano e que muitas vezes são procurados por alguém para ajudar determinada comunidade.
“A ação, muitas vezes, parte de alguém que procura a gente quando está precisando. Nesse caso recente, por exemplo, um amigo meu de outro MC falou que a Vila estava precisando e a gente decidiu apoiar. A gente procura fazer pelo menos quatro ações dessa por ano e procura sempre levar todo mundo”, finalizou.
E como diria a música de Steppenwolf, eles podem até ter “nascido para ser selvagens”, mas também podem ser representados por outro trecho da mesma canção, que fala “take the world in a love embrace”, ou simplesmente “abrace o mundo com amor”.
Veja abaixo um vídeo e, logo depois, uma galeria de imagens.