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Professor João Trindade: Estranha eleição

Sempre gostei de eleições e adoro votar. Para mim, dia de eleição é dia de festa, de barulho, de abraços, de alegria, de bebidas e de gente nas calçadas… É dia de expetativa. Acordo logo cedo, doido que chegue minha hora de votar, ir para a rua, caminhar (gosto de ir a pé), ver os cabos eleitorais na esquina, os bocas-de-urna…

Mas, aos poucos, tudo isso foi se acabando. “Não pode” mais fazer boca- de- urna; não pode mais ter retratos (recuso-mo a chamar “santinhos”) nas calçadas; o eleitor tem que “se manifestar em silêncio” (nunca entendi como é que alguém “se manifesta” em silêncio: coisas da nossa “Justiça” eleitoral). Tudo hipocrisia. O mais importante não proíbem e nem proibirão: a compra de votos.

Pois é… Mas a mais estranha, mais triste e mais sem graça das eleições será essa. Já me imagino acordando cedo, porém sem ânimo; na dúvida se vou votar, ou não; numa situação barroca de ter uma vontade louca de votar, mas um medo enorme da Covid-19. Há quem diga: “Que nada; é só se proteger e seguir os protocolos…”.

Que protocolos? Quem garante que um espírito de porco não me abraça, inesperadamente, no caminho e eu tenho que voltar para tomar banho e retornar para votar? Essa história de protocolo é balela. Seria bom se todo mundo seguisse. Mas há uns 15 dias tive que ir à Caixa Econômica resolver algo que não poderia ser adiado; enfrentei uma fila homérica. E uma mulher que estava atrás de mim falava, o tempo todo, ao celular. Além de insistir em não manter a distância regulamentar, cada vez que a fila raramente andava ela fazia questão de se aproximar mais de mim; e, quando parada (a fila), cada palavra que ela dava se aproximava mais ainda; eu me afastava e ela se aproximava. Quando eu já estava na frente, quase fui repreendido pelo segurança, porque me aproximei muito da porta da entrada da agência.

De modo que irei votar, neste domingo, mais cedo (escrevo esta coluna um dia antes); “no horário dos velhos”, que, dizem, vai ter menos aglomeração. E lá vou eu, de máscara, um recipiente com álcool gel na mão, olhando prum lado e pro outro, a espreitar qualquer cidadão que faça menção de se aproximar de mim, sobretudo conhecido (e o pior é que sou conhecido à Beça), com medo de abraços forçados, de apertos de mão, nessa época de pandemia, maléficos. Já me vejo chegando à seção (espero que se houver fila não haja outra pessoa tão loquaz ao celular como a mulher da Caixa) e, ao me aproximar do mesário (mantendo a distância regulamentar, é claro)apontar, como se fosse uma arma, meu celular, aberto no “e-título”. Na cabina, apertarei(de luvas) o número dos meus candidatos (que excepcionalmente nessa eleição não são “meus preferidos”, mas vou “escolher” por exclusão) e, após votar, pela primeira vez sairei sem fazer a coisa que mais gosto na vida: apertar a mão dos mesários, na chegada e na saída.

Que triste e estranha eleição!…

*João Trindade

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