Estava guiando quando, pelo rádio do carro, chega a notícia: o Tribunal Regional Eleitoral está convocando os eleitores para o cadastramento biométrico.
Pensei com meus botões:
– Eita, vou ter que ir lá fazer isso.
E tenho que ir mesmo: na convocação está embutida a ameaça, caso ignore o processo, de perder o direito ao voto, não poder tirar o passaporte ou carteira de identidade, ser vetado a certos tipos de empréstimos ou assumir cargo público – entre outras penalidades.
Quando cheguei ao escritório e abri o computador, porém, me deparo com uma portaria – subscrita pelas maiores autoridades do Judiciário brasileiro – informando que, nas eleições de 2016, voltaremos ao século 20, votando com urnas de lona e cédulas de papel.
E tenho que acreditar nisso porque quem nos avisa é o presidente do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça, em conjunto com os presidentes do Tribunal Superior Eleitoral, do Tribunal Superior do Trabalho, do Superior Tribunal Militar, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e territórios e da vice-presidente em exercício do Superior Tribunal de Justiça.
A volta ao passado está sendo asfaltada em conseqüência do bloqueio de 1,7 bilhão imposto pelo Executivo ao orçamento do Judiciário.
Sem esses recursos, segundo os comandantes das mais altas cortes judiciárias brasileiras, as eleições eletrônicas estão inviabilizadas.
Biometria, então, nem pensar.
O processo, que praticamente zera a possibilidade de fraudes e avançava em todo o País de forma bem sucedida, deve ser estancando.
Ou não? Será que ainda tenho que fazer a biometria?
Assim como a maioria dos cidadãos deste País, estou confuso.
E confesso: o que mais queria, neste momento, era ter a capacidade de entender o Brasil.
Afinal, o que se passa nesta nação?
Como em um momento ostentamos tecnologia eleitoral de ponta e, no instante seguinte, voltamos à caneta e ao papel?
Queria entender, ainda, como o bloqueio dos recursos atinge especificamente as urnas eletrônicas – mantendo a salvo outros custos do Judiciário.
Enquanto as respostas não vêm, voltamos à lona – absurdamente nocauteados por um País difícil de explicar.
E mais ainda de entender.