Até entre os petistas mais disciplinados e comedidos, não houve como disfarçar o constrangimento causado pelo ácido discurso do governador Ricardo Coutinho contra o PT e a gestão de Dilma em seu pronunciamento, nesse fim de semana, em defesa de Marina Silva, sua companheira de PSB, durante ato público em Campina Grande.
Quem esperava ponderação, parcimônia ou neutralidade de Ricardo diante da polarização Marina e Dilma, quebrou a cara. O socialista passou longe do muro e assumiu, de uma vez, a dianteira da campanha da ex-ministra na Paraíba. Não somente isso. Desconstruiu a eficiência do governo do PT e afugentou o fantasma do “medo” que Lula e Dilma invocam para afastar os eleito- res da opção por Marina.
A julgar pelo tom adotado por Ricardo, os petistas paraibanos reagiram epidermicamente. Nenhuma oitava acima da parte de quem tem tamanho e expressão no comando do partido. As reações mais fortes foram pontuais: Fuba, Bira Pereira e Anselmo Castilho, figuras que de há muito não engolem Ricardo.
Na cúpula, reinou o desconforto, mas amortecido diante de uma reflexão lógica: a esta altura, não há muito o que fazer. Brigar, romper? Cartas fora do baralho. Raciocinam: Qualquer movimento nessa linha seria fortalecer Cássio, por tabela, e enfraquecer Lucélio, que só acha reciprocidade ao seu projeto em Ricardo. Ou seja, entre a sustentabilidade de Lucélio e a defesa de Dilma, primeiro vem a sobrevivência.
A rigor, Ricardo age acertadamente. Abraça e se associa a uma candidata em franca ascensão e com vaga garantida no segundo turno. Faz dois deveres, o partidário e o estratégico. Se consegue a proeza de ter o voto dos marineiros e dos dilmistas, mesmo melindrando publicamente com os adeptos da petista, pra quê pé no freio?
Afinal, ao PT da Paraíba Ricardo deu uma vaga de senador na chapa e do partido já obteve tudo o que precisava: o maior tempo individual de televisão, além de estrutura e aguerridos cabos eleitorais na Capital. Na moeda da política, estão quites.