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Saiba como proteger as crianças na pandemia do coronavírus

O ineditismo de ações de isolamento e quarentena em meio à tentativa de contenção do novo coronavírus tem feito uma pressão adicional em muitas famílias que estão tentando equilibrar o trabalho, em casa ou na rua, as tarefas de casa e o cuidado com as crianças afastadas da escola e das atividades esportivas ou sociais.

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“Agora eu troco de roupa do lado de fora de casa”. Os cuidados de Elizabeth Vasconcelos com a higiene já eram hábito, mas por causa do novo coronavírus e do problema de asma de Duda, a filha caçula de 5 anos, a família precisou criar novas formas de intensificar a proteção. Apesar de, no geral, não serem parte do grupo de risco, em algumas situações as crianças podem ter uma evolução mais grave se infectadas. Segundo o Ministério da Saúde, os riscos estão em pessoas com alguma comorbidade anterior como doença cardiovascular, diabetes, doença respiratória crônica, hipertensão e câncer, além dos idosos. Somente na Paraíba, são oito crianças com suspeita da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus.

“Me preocupa muito essa situação, pois Duda se encaixa no grupo de risco mesmo sendo criança. Dizem que as crianças não desenvolvem ou que são assintomáticas, mas como ela já tem predisposição e problema respiratório, me preocupa muito.”, diz Elizabeth.

Ela é enfermeira obstétrica no Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea) em Campina Grande. O serviço é a referência para o atendimento de grávidas com suspeita da Covid-19. “Por isso a gente toma algumas precauções. E na verdade temos os mesmos cuidados, mas de forma redobrada. A gente não sai mais de casa, não há mais contato com outras crianças ou pessoas, estamos sempre lavando as mãos e quando chego do trabalho já me troco do lado de fora. Coloco todos os objetos em uma caixa fora da casa. Fazemos isso por ela e pelos outros da família também, mas especialmente pela história da asma”, conta.

Crianças

Elizabeth Vasconcelos e a filha Duda (Foto: Reprodução/Arquivo pessoal)

Para ela, o isolamento social é a única forma de garantir que pacientes com risco de uma evolução grave da Covid-19 tenham acesso a leitos de UTI, caso necessitem. “Por eu estar de dentro, na linha de frente, sei que é algo real e infelizmente muita gente não acredita. O isolamento é justamente para evitar que todos adoeçam ao mesmo tempo. É um vírus e todo mundo vai pegar, mas a medida de distanciamento evita que todos adoeçam ao mesmo tempo. Se isso acontecer aos poucos, teremos assistência, leitos, respirador e uma equipe para atender a população. Se não, vai colapsar e muita gente vai morrer”, afirma. 

No ano passado, o estado registrou 767 internações de pacientes entre 0 e 14 anos por causa de asma. Os dados estão disponíveis no sistema TabSus. Os cuidados

Banho no quintal

A também enfermeira Monaliza Medeiros é mãe do pequeno Artur de 2 anos e 11 meses. Artur não tem asma, mas apresenta um quadro de alergia respiratória, que foi descoberto pela família assim que o menino passou a ir para a escola, por volta de 1 ano e 8 meses.

“Me preocupa, porque os sintomas da alergia respiratória e da Covid-19 são muito parecidos e confunde. E ainda temos uma preocupação a mais que é o fato de que, se está apresentando sintomas provenientes de uma alergia, naturalmente o estado imunológico da criança já está afetado, podendo desenvolver com mais facilidade outras patologias”, acredita.

A rotina antes da pandemia era mais flexível. Mas depois deste novo cenário, até o banho mudou – pelo menos agora, Monaliza passa a fazê-lo, assim que volta do trabalho, no quintal de casa.

“Os cuidados já iniciam no meu ambiente de trabalho. Meu cabelo fica sempre bem preso com touca. Uso todos os equipamentos de proteção individual disponíveis. Na troca do uniforme coloco ele dentro do um saco plástico amarrado. Quando chego em casa estou tomando banho no quintal. Deixo tudo fora de casa: sapato, bolsa e a roupa para lavar. O que não pode ser lavado, higienizo com álcool 70% e deixo secando no sol. Já as roupas ficam primeiro de molho com água e sabão antes de colocar na máquina de lavar e só então, depois desse ‘ritual’, são lavadas. Parece exagero, mas é necessário para proteger a saúde de todos na minha casa”, conta. 

Para ela, a situação de pandemia com uma doença causada por um vírus para o qual ainda não existe vacina, obrigou as famílias a adotarem uma nova cultura de higiene. “Sem dúvida mudamos os nossos hábitos. Digo que estamos em treinamento, colocando em prática tudo que já sabemos mas que não tinha o costume de fazer. A Covid-19 nos trouxe um grande aprendizado em todos os aspectos”, avalia.

Imunodeficientes podem ter evolução severa

De acordo com a infectologista Maria Benalva Medeiros, crianças (e adultos no geral) com imunodeficiência podem ter quadros mais graves se infectadas por vírus ou bactérias. “Crianças com imunidade e deficiência adquirida descontrolada, ou imunodeficiência primária, teria chance de, exposta a um vírus – que a gente ainda não sabe, pois é tudo novo – ter uma doença mais severa. Mas a gente ainda não tem casos mais descritos. Os asmáticos também, por isso todo asmático faz a vacina anual de gripe. Crianças com câncer tem uma chance muito grande – não só criança, mas todas as pessoas com deficiência na imunidade”, explica.

Segundo ela, a severidade de doenças infecciosas são tanto para imunodeficientes congênitos ou adquiridos. “Seria assim. Se você tem uma imunidade alterada por qualquer motivo que seja, congênito ou adquirido, se tem a chance de qualquer vírus ou bactéria provocar alguma alteração. Ainda bem que a frequência está sendo tranquila. A minha orientação aos pais é: quanto mais ficar em casa, melhor. Tentem conseguir na sua própria casa todas as atividades, sono e alimentação regular. Isso faz com que permaneça na sua tranquilidade uma imunidade normal”, diz.

Apesar de a doença ser nova, os conselhos médicos são os de sempre: visita regular ao médico. “Tem que se pensar que isso é uma doença nova e estamos aprendendo com os casos. Por exemplo, o comportamento no Brasil nos mostra que a Covid-19 não está atingido muito idosos, mas pessoas que são descuidadas com sua própria imunidade. Com sua cardiopatia, com a diabetes descompensada, que é super comum nesse país, e gente que nem sabia que tinha a doença. Com uma população que não toma seus cuidados de saúde, e por causa do funcionamento do nosso sistema de saúde, que apesar de planejado não funciona muito bem”, avalia.

Crianças com microcefalia

Uma preocupação também atinge profissionais que acompanham crianças com microcefalia. Para a médica especialista em medicina fetal que descobriu a relação entre o zika vírus e o nascimento de crianças com microcefalia, Adriana Melo, a pandemia é mais um desafio para este grupo.

“Como não temos estudos ainda, não podemos afirmar, mas como muitas das nossas crianças têm pneumonias de repetição por broncoaspiração, elas podem ser consideradas como de risco aumentado devido a pneumopatia crônica. Nossa recomendação foi de isolamento total das crianças”.

Crianças alérgicas

A médica alergista e imunologista Catherine Martins explica que crianças com doenças respiratórias não têm mais chances de serem infectadas pelo novo coronavírus, mas caso infectadas, podem ter seus sintomas pré existentes aumentados. “Crianças que apresentam alergia respiratória, asma ou rinite, e que estejam com seus sintomas controlados, têm o mesmo risco de se infectar que as outras pessoas. Aparentemente, não apresentam maior risco de ter a doença mais grave pelo coronavírus, mas podem ter seus sintomas de alergia piorados pela infecção, como pode ocorrer com qualquer outra infecção respiratória viral”, explica.

O caso é diferente para pacientes que fazem uso de medicação para controle. “Pacientes em uso de medicamentos que afetam o sistema imune (imunossupressores), por exemplo, para controlar dermatite atópica grave, são pacientes de risco para ter o quadro mais grave da Covid-19”, responde.

A orientação para os pais é nunca interromper os tratamentos sem consulta prévia ao médico da criança, manter atualizada a caderneta de vacinação e respeitar as medidas indicadas pelo Ministério da Saúde.

“Para as crianças portadoras de asma em uso de corticoides inalatórios (as bombinhas), essas medicações não devem ser abandonadas, nem tampouco retiradas do tratamento do paciente com asma e o mesmo se aplica para aqueles pacientes em tratamento de rinite. O uso regular e correto de medicações inalatórias deve ser preconizado independente da circulação do coronavírus. As exacerbações são as principais causas de morbidade em pacientes com asma. A associação entre doenças virais respiratórias e exacerbação da asma é bem conhecida e um número relevante de agentes virais já foi identificado. Muitos destes grupos virais aumentam a inflamação brônquica e alérgica causando danos às estruturas respiratórias, epitélio e endotélio. Para estas crianças portadoras de asma, além da vacina de influenza, também é recomendado as vacinas anti-pneumocócicas. Vale salientar que é imprescindível seguir todas as medidas preconizadas pelo Ministério da Saúde para contenção do vírus”, avalia.

Como funciona o sistema imunológico

“O sistema imunológico é composto por uma variedade de diferentes tipos de células e proteínas. Cada elemento executa uma tarefa específica com o objetivo de reconhecer e/ou reagir contra material estranho. É uma maravilhosa colaboração entre diversas células e proteínas que trabalham juntas para fornecer respostas rápidas à infecção”, conta.

As crianças são mesmo consideradas o grupo com melhor imunidade? “A maioria das crianças é exposta a diversos tipos de vírus com frequência. De maneira geral, em uma primeira infecção, o sistema imune é capaz de gerar células de memória, de modo que em uma segunda exposição à este organismo, estas células são ativadas rapidamente. Em geral, processo de soroconversão (que é a produção de anticorpos específicos contra o patógeno invasor) dura cerca de 15 dias.  Em uma segunda exposição a este mesmo microorganismo, muitas vezes não ocorre doença pois o sistema imune é ativado de maneira rápida e eficaz e consegue debelar o patógeno antes que ele cause doença. No caso do coronavírus, ainda não sabemos se o contato com este promove imunidade”, analisa.

Os dados mundiais sobre os casos de coronavírus mostram que, no geral, as crianças estão sempre em menor número de casos confirmados. Mesmo assim, é necessário cuidados. 

“Na população pediátrica até o momento – as evidências científicas ainda não conseguem explicar – as descriçõesde casos mostram um perfil de doença leve com poucos relatos de complicações e hospitalizações e raríssimos casos com desfechos fatais, cenário bem diferente do relatado em adultos, em particular nos com mais de 60 anos e/ou portadores de comorbidades, que concentram a quase totalidade das mortes registradas. Estudo recente ainda em fase de pré-publicação, analisou uma populaçãode 2.143 pacientes pediátricos e mostrou que em 94% dos casos as crianças eram assintomáticas, com manifestações leves ou moderadas. Entretanto, apesar dos casos pediátricos serem frequentemente associados a quadros assintomáticos, especula-se que as crianças possam desempenhar papel importante na disseminação do vírus”, alerta. 

Fugindo do tédio

A diretora de políticas públicas, Kátia Dantas, elenca uma série de recursos que podem ser usados por pais e mães para tentar diminuir o estresse no dia a dia. Manter a rotina e as tarefas regulares dentro do possível é uma das dicas.

Segundo a especialista, em momentos de estresse, é normal que a criança sinta maior necessidade dos pais, aumentando a exigência sobre eles. Para diminuir essa ansiedade, ela sugere conversas honestas com os pequenos, apropriadas para a faixa etária, sobre Covid-19. É importante ainda ajudar as crianças a expressarem seus medos e ansiedades de forma positiva.

Para os adultos, ela reforça a necessidade de prestar atenção na saúde mental, o que vai contribuir de forma positiva também para o ambiente familiar. Ela sugere ainda a busca por informações em fontes fidedignas (imprensa, autoridades de saúde dos países e Organização Mundial da Saúde). Além disso, é importante também evitar o “bombardeio desnecessário” de notícias – concentrando a leitura em apenas um momento do dia.

*Com Renata Fabrício, do Jornal CORREIO

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