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Seda?

Há meio século – e dito assim parece ainda maior do que realmente é – exercia, pela primeira vez, o direito do voto.

O mundo era muito diferente. As eleições mais ainda.

Era uma época de ideologias fortes. E paixões políticas intensas.

Tudo se dividia pela metade – o bom e o mau; direita e esquerda. Ao eleitor, cabia tão somente escolher que lado do cordão desejava puxar.

Ao longo dessas cinco décadas, assisti a transformações intensas. Os cordões se multiplicaram, as ideologias enfraqueceram, os ideais partidários foram sobrepostos.

E depois de assistir a tantas eleições, 2014 chega como um divisor de águas. O mar eleitoral se abriu e, do outro lado, encontramos um mundo novo.

Talvez estejamos vivendo, neste domingo, a eleição de menor compromisso partidário da história – ou pelo menos das que testemunhei nestes últimos 50 anos. Sorvemos uma sopa de letrinhas, servidas em inusitadas coligações, onde todos os cordões convergem, trançam e dão nó.

Eu, que jurava já ter visto tudo e me julgava incapaz de surpresas, chego hoje – de olhos arregalados – a este momento de decisão.

Onde estão as paixões?

Quantos, e para onde vão, todos esses cordões?

Olhando ao redor, vejo que poucos parecem (pouco) interessados nas respostas.

Todos estão em estado profundo de sedação.

E me surpreende a ausência, o silêncio e a letargia que substituem a ruidosa paixão que nos acompanhava, no passado, até as urnas.

Estamos apáticos até mesmo em relação aos escândalos e denúncias. Por mais consistentes e comprováveis, são embaladas no manto da disputa eleitoral, sem cobrar responsabilidades nem consequências.

Nada respinga neste mar de vergonha. Nada mais choca.

Assistimos denúncias de superfaturamento, corrupção, locupletação de cargos públicos, compra de apoio e votos com a indiferença com que – infelizmente – olhamos neste início de novo século para um corpo estendido no chão.

Em 1960, a violência e tragédia comoviam. Hoje é uma estatística.

Da mesmo forma, uma denúncia poderia significar o soterramento político. Hoje é só mais uma, sem direito a indignação.

E é na forma de uma massa sonâmbula que decidimos, neste domingo, a realidade que viveremos, bem acordados, nos próximos quatro anos.

Falta consciência política, sobra sedação.

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