
Historicamente, o Palmeiras não é reconhecido por ser um grande formador de jogadores das categorias de base. A informação é do R7.
No século atual, o abismo em relação aos rivais paulistas era enorme. O São Paulo, que por anos, foi referência, revelou nomes como Hernanes, Lucas Moura e Casemiro.
O Santos, com Diego, Paulo Henrique Ganso e Neymar, ganhou uma série de títulos com seus meninos da Vila.
O Corinthians, maior campeão da Copa São Paulo de Futebol Junior, também mostrou ao mundo nomes como Willian, Marquinhos e Éverton Ribeiro, advindos do seu “terrão”.
Mas parece que o jogo virou e essa história começou a mudar em 2015. Na época, o então presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, convidou João Paulo Sampaio, um baiano louco para “cair no melhor estado do país”, para se tornar coordenador da base do clube.
Em entrevista ao R7, João Paulo contou detalhes do dia a dia na base palestrina, além de revelar histórias e dar opiniões fortes sobre o seu método de trabalho vitorioso.
Com mais de 17 anos no Vitória, com passagens como treinador e coordenador da base e gerente de futebol profissional, ele chamou atenção de alguns clubes brasileiros, após se destacar no clube nordestino.
“Acho que fui para o lugar certo e para o time certo, então foi muito fácil. Ouvindo as pessoas que me convidaram na época foi mais fácil ainda devido ao projeto de profissionalização do Palmeiras, de se tornar uma referência na base, coisa que o Palmeiras nunca foi. Foi um desafio bem interessante para a carreira profissional. Como pessoa eu já queria ir para um estado como São Paulo”, conta o gestor da base palmeirense.
Os oito anos de Sampaio à frente dos juniores coincidem com o período mais vencedor do clube alviverde nas categorias inferiores.
Desde 2015, o Palmeiras ganhou mais de 100 troféus entre as categorias sub-10 e sub-20, se tornou o maior campeão de títulos nacionais da base, e de quebra, formou jogadores que se tornaram ídolos da torcida, como Danilo, Gabriel Menino e Gabriel Jesus.
A Academia de Futebol 2, dentro do Parque Ecológico do Tietê, localizado em Guarulhos, na grande São Paulo, é usada pela categoria de base palmeirense. O local chegou a ser considerado um problema. Para João Paulo, o principal a se fazer era “mudar o foco para o campo”.
Antes da chegada dele, eram quatro treinadores e dois captadores de talentos para todas as divisões inferiores. Agora, são oito treinadores, e dez captadores exclusivos para a base, além de aumentar o número de atletas.
“Todo cartão de visita de um clube de futebol é o resultado do campo, é o que o campo chama atenção”, conta Sampaio.

“A gente viu que nas 30 maiores vendas do futebol brasileiro, em 23, os meninos começaram abaixo de 13 anos nos seus clubes, então assim, é importante termos essa iniciação (…) Focamos nessa iniciação, na busca de jogadores, na captação forte e a estrutura melhorou em relação ao que era. Mas acredito que vai melhorar mais ainda”, completa o gestor.
Nos mais de 45 mil m² da área, são cinco campos em tamanho oficial de jogo. A grande questão atualmente diz respeito ao hotel da base, algo já cobrado publicamente por Abel Ferreira em entrevistas coletivas.
Questões burocráticas fizeram o clube mudar o percusso, e a ideia de construir uma parte de hotelaria, no mesmo local em que os jovens treinavam, em Guarulhos, não foi para frente.
Agora, a ideia é ter um hotel na capital, próximo da Barra Funda, onde o elenco do Sub-20 – único time da base que faz atividades no CT principal – treina diariamente
Uma passagem curiosa contada por João Paulo mostra a obsessão dele pelo sucesso. Após uma eliminação palmeirense, logo nos primeiros do coordenador no alviverde, e justo contra o Vitória, pela Copa do Brasil sub-17, em abril de 2015.
Os jogadores ligaram uma caixa de som no vestiário, para ouvirem música, após serem eliminados ao empatar por 3 a 3. João Paulo não gostou nada da atitude, e conta ter entrado chutando a porta. O que acabou, por acidente, atingindo uma garrafa de água na cabeça de Artur, hoje no Red Bull Bragantino.
“Eu falei: só vai ficar aqui, primeiro, quem tem qualidade para isso, agora a régua vai aumentar de patamar. Segundo, para que no dia que vocês perderem uma classificação, vocês vão entrar aqui chorando, vocês não vão mais estar acostumados a perder. Aqui vai ter que querer ser o melhor, sempre tem que querer ser o melhor”, lembra João.
No Palmeiras, a corda não é esticada e os meninos têm uma rotina com muitas regras a serem seguidas. Em viagens, são eles mesmos que fazem o check-in, por exemplo. No quarto, arrumar as camas é obrigatório. Mandar cardápio com arroz e feijão em viagens internacionais? Nem pensar.
“Precisamos preparar essa pessoa para o mundo, não só o jogador. A grande maioria não vai estar nesse nível de futebol e nesse nível de clube. Estará em clubes menores, um clube que não tem esse tipo de estrutura e tem que se adaptar”, ressalta João.
“Você não vai ver jogador do Palmeiras com o cabelo pintado, cheio de desenho. Se chega com um risco, beleza, mas usar brinco na base, eles não vão fazer isso, a regra é para todos”, completa o gestor.
Durante a conversa, Sampaio revelou, inclusive, que Estevão, joia palmeirense que foi campeão da Copa SP de Futebol Júnior, no início do ano, iria disputar uma partida pelo sub-15, categoria que ele já não fazia mais parte. O motivo? “Determinação nossa, não a dele”, afirma.
“Para a gente é bem claro, quem forma o filho é o pai e a mãe. Quem forma o atleta é o clube”.