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Silêncio

Sou pernambucano, nascido numa família de professores universitários. Política, portanto, sempre fez parte do nosso “cardápio” doméstico.

Não, não éramos uma família de políticos. Mas éramos, com certeza, uma família politizada.

E é por isso que sempre olhei com interesse redobrado para esta seara desde que me entendo por gente. De Vargas até os dias atuais, acompanhei com uma lupa todos os fluxos e refluxos da nossa República.

Sou capaz de lembrar onde estava e o que senti diante dos episódios mais graves. Lembro muito bem, por exemplo, de 64. Tinha dezoito anos. Votava. E sabia que estava vivendo um momento histórico e crucial.

Sabia, por exemplo, que a preço de uma suposta libertação do jugo comunista, meu título eleitoral ficaria guardado por um bom tempo…

De tudo que vi e ouvi, um fato se repetiu (sem exceção) nos fatos que estes olhos testemunharam: as Forças Armadas sempre participaram de todos os eventos políticos da nação – sejam como protagonistas ou como coadjuvantes.

Eles estavam lá com seus tanques em todos os levantes; em todos os movimentos; em todos os incidentes (tratados ora como golpes, ora como revolução, dependendo do lado que se consulta).

A exceção ocorre agora.

Em nenhum momento, nestes quase dois anos de crise (política, econômica e quiçá institucional) se ouviu qualquer referência às Forças Armadas.

As vozes que se levantam são de policiais federais, procuradores da República, juízes, ministros do Judiciário. São de grandes empresários desnudos; de líderes populares acuados; partidos feridos.

Em outros tempos eles estariam mudos. As vozes que se esperava ouvir naquelas épocas eram dos generais, dos brigadeiros, dos almirantes.

Essas vozes pesavam na balança. Eles tinham a força.

E – verdade seja dita – ainda têm. Mesmo tendo sido intencionalmente tratados a pão e água nos últimos anos.

A despeito disso, em nenhum momento qualquer dos lados envolvidos na crise fez alusão ou convocação aos comandantes das Forças Armadas. Eles, tampouco, se pronunciaram.

Permanecem silentes, observando o Brasil lavar sua roupa suja de forma exclusivamente democrática, usando a Constituição Federal como bússola. E as instituições como mediadoras dos nossos conflitos.

E é por isso que estes olhos, que já viram tanto, contemplam o Brasil de hoje com admiração. E uma boa dose de satisfação.

O silêncio deles é a prova que vivemos, de fato, em um outro Brasil.

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