Patrulhamento extremo está em curso no País no sentido de inibir o preconceito. O foco é transformar o Brasil na nação dos sentimentos palatáveis.
Conter o preconceito é justo (e isso nem se discute), mas será que não estamos nos engessando socialmente?
Neste Brasil do palatável minha mãe (que Deus a tenha) jamais poderia chamar Cucuta e Donaninha, as filhas de ex-escravos que faziam parte da minha família, daquele jeito carinhoso que tantas vezes testemunhei na infância:
– Pode vir aqui neguinha?
No mesmo tom, ela tratava o genro alemão, sempre chamado de “galego”.
Neguinho e galego não são, ao contrário do que se pode pensar, dois extremos. A diferença se circunscreve ao tom da pele, mas a referência continua sendo racial. No Brasil de hoje, porém, um dos tratamentos poderia levar minha mãe para a cadeia.
Questiono, porém, as supostas intenções ideológicas que estariam por traz de tudo isso. Pois inibir o preconceito é uma coisa; estimulá-lo, inflamando a reboque as lutas de classes, é outra.
Afinal, estamos construindo uma nação igualitária ou dividida?
O resultado, que já se configura nas ruas, é o estímulo ao antagonismo. Programando os brasileiros a potencializar as diferenças entre sulistas e nordestinos; ricos e pobres; com teto e sem teto; brancos e negros; magros e gordos; heterossexuais e homoafetivos.
Não vou me aprofundar nesta polêmica, até porque – entre excessos e preciosismos -, o combate ao preconceito precisa seguir prosperando, pois se trata de ação inalienável rumo a uma sociedade mais igualitária – onde não haverá lugar para acepções de raças ou credos, gêneros ou opções sexuais.
E ao fazer esta defesa, devo confessar que legislo em causa própria pois também sofro, na pele, as agruras do preconceito.
Sim, sou extremamente discriminado.
Sofro preconceito, por exemplo, quando vejo nas ruas centenas de motoqueiros cruzando o semáforo vermelho sem placas para que a transgressão não seja identificada e punida. Enquanto isso, sou obrigado – sob pena de sofrer multas pesadas e muito constrangimento – a cumprir regiamente a legislação de trânsito e jamais circular sem que minhas contribuições pecuniárias estejam quitadas e regularizadas.
Também sinto a extensão do preconceito quando sou orientado a jamais rebaixar a calçada da minha casa, para facilitar o acesso do meu veículo, pois isso me renderia uma autuação quase que instantânea. Mas assisto a complacência em relação a bairros inteiros, que podem ocupar indiscriminadamente o passeio publico sem repressões.
A discriminação ainda me atinge quando sofro sansões por tentar proteger da erosão um lote que tenho localizado a beira mar. Rapidamente, um agente da lei me adverte que estou atuando em área privativa do Patrimônio da União.
Os agentes, porém, parecem não ter olhos para enxergar a vertiginosa ocupação, em caráter de invasão, que ocorre na faixa litorânea.
E como não me sentir discriminado quando olho para meus arquivos, onde guardo com cuidado registros de mais de 50 anos de declaração do Imposto de Renda, quando sei que no meu entorno se prolifera uma legião que sequer declara suas rendas e bens?
Mais: cumpro religiosamente o direito de votar, pois a Justiça Eleitoral me proibirá até de fazer uma viagem se não tiver em dia com minhas obrigações de eleitor, mas assisto um contingente cada dia maior ignorar solenemente os pleitos.
Integro, portanto, a legião dos especiais – sobre os quais recaem todas as demandas e obrigações, enquanto funciona, em paralelo, um outro Brasil que não está nem aí para os encargos, leis e normas nossas de cada dia.
Por tudo isso, e adendos que não caberiam neste espaço, me considero membro efetivo de uma minoria discriminada.
Minha mãe, que na época da inocência manifestava sem constrangimento seu carinho politicamente incorreto, se estivesse aqui mais uma vez me diria:
– Filho, as pessoas só atiram pedras em árvores que dão fruto!
Custei a entender a máxima popular. Hoje, que entendo tão bem, registro meu desabafo:
Estou cansado de ser frutífero. Já chega de tanta pedra.