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Supremacismo branco é pano de fundo em Bacurau

Bacurau é um filme bastante estudado, no que diz respeito à narrativa. Há um jogo muito grande de entregar e sonegar informações do espectador, que pode ir deduzindo elementos, mas também ser ocasionalmente enganado por pistas falsas, enquanto outras mais reais vão passando despercebidas. Por essa razão, é muito difícil conversar sobre o filme sem abordar algumas de suas surpresas e seus efeitos. Portanto, revelações sobre o enredo (os não tão populares spoilers) vêm a seguir. Vá em frente por conta e risco. E, se for, vá na paz.

O filme de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles se passa em um povoado do fim do mundo do sertão nordestino: Bacurau. O tempo é o futuro próximo. Trata-se, então, de uma ficção científica? Empurrando o espectador para este lado, o filme planta um disco voador em determinado momento do filme. Não um qualquer, mas um com toda a cara de filme americano dos anos 1950, tipo O Dia em que a Terra Parou (1951).

No clássico de Robert Wise, um alienígena chega à Terra para alertar sobre a crescente violência em nosso planeta. Não deu certo: os habitantes de Bacurau começam o filme lidando com seus próprios problemas, mas logo se dão conta que estão sendo vítimas de um ataque misterioso.

Quem seriam os atacantes? O filme vai nos contando aos poucos e o disquinho voador dá toda a pinta de algo como um ataque alienígena. É um drone, na verdade, e quem está por trás são, sem dúvida, alienígenas àquela terra, embora deste mesmo planeta.

Embora o filme não se preocupe em esmiuçar detalhes — o que nos coloca apenas um pouco menos no isolamento que os habitantes de Bacurau —, o grupo de estrangeiros está ali para caçar os habitantes de Bacurau. É uma espécie de safari.

O filme, nesse ponto, reflete um ponto à frente da face mais aterradora da sociedade estadunidense: as armas no cotidiano e os seguidos massacres a cidadão comuns indefesos. Aparentemente, grupos de predadores supremacistas se organizaram para não matar em seu próprio país, mas para caçadas “seguras” a pessoas em terras para quem o governo local não ligue. Na visão deles, pode ser até ecológico: não são animais na África em perigo de extinção, mas seres humanos, os quais o planeta tem sobrando.

O supremacismo branco é um dos poucos elementos que ficam muito claro: na cena em que os estrangeiros debocham dos brasileiros brancos, seus aliados, que acham ser como eles.

O que acontece em seguida foi avisado em pistas cifradas no decorrer do filme. A placa de boas-vindas — “Bacurau — Se for, vá na paz” — está mais para um aviso. A definição do que significa o nome da cidade — um pássaro que só sai à noite porque “é brabo” — também.

Mais do que a ficção científica, deixada mais de lado quando os mistérios vão ficando mais claros, é o faroeste a fonte de onde os diretores bebem. Não só no plano do prefeito no povoado, a câmera subindo para mostrá-lo só na rua (decalcado de Matar ou Morrer, 1952), mas na reta final, uma espécie de versão de Sete Homens e um Destino (1960), sem os sete homens.

No faroeste de John Sturges (e no filme em que ele se baseia, Os Sete Samurais, de Kurosawa, de 1954), um povoado é seguidamente saqueado por bandidos que aparecem, roubam tudo e vão embora. Os habitantes procuram um grupo de caubóis (ou samurais, no original) para defendê-los. E os guerreiros acabam treinando o povo para enfrentar os opressores.

Aqui, o povo não precisa desses professores: sua história de enfrentamento das opressões que vêm de fora já os treinou. A explosão de violência contra a violência de quem se considera superior a ponto de achar que a vida do outro não vale nada não deixa a plateia incólume: é espertamente embalada nesses códigos do faroeste, que mostram como são ainda efetivos. Curiosamente, algumas resenhas da grande imprensa do Sudeste reclamou dessa violência. Terá o filme tocado em (mais) um nervo exposto?

*Texto de Renato Félix, do Jornal CORREIO

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