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Tão longe, tão perto

Eis a cena: quarto de casal, dia qualquer da semana. Eles estão acordando.

Primeiro ato: homem olha o celular, verifica a hora.

Segundo ato: vê mensagem, identifica a origem e não resiste: abre e lê o texto.

Terceiro ato: decide responder imediatamente a mensagem, roubando os primeiros instantes do seu dia.

Quarto ato: lembra que tem mais alguém na cama. Vira-se para a companheira e, só então, lhe deseja bom dia.

Mas, pela fisionomia dela, o dia definitivamente não começou bem.

Este sou eu acordando. O quarto é o meu. Mas poderia ser o seu.

Certamente é o de muita gente, arrastada para essa era nova que escancara as portas de um extraordinário mundo virtual.

Um mundo realmente novo e absurdamente diferente daquele em que as notícias chegavam através de cartas, que viajavam lentamente nos malotes dos Correios.

Naquela época, uma troca de mensagem poderia durar dias, às vezes meses.

Hoje, dura o tempo de um instante.

Derrubando distâncias, redimensionando tempo-espaço.

Agora, Fernão Gaivota, longe é de fato um lugar que não existe!

No meu embrionário mergulho neste mundo sem lonjuras nem espera, a comunicação instantânea pode até não ser classificada patologicamente como vício ou obsessão, mas certamente está no limite dos dois.

Mas quem pode resistir à tentação de, num simples “touch”, se reunir com amigos de qualquer parte do planeta?

Pode ser Nova Iorque ou Sertânia; Tóquio ou Intermares – todos estão à mesma distância: a milimétrica, instantânea, distância do touch.

Ninguém, realmente, resiste. E eu confesso que desisti de tentar.

E é por isso que estamos todos sentindo os efeitos desse limiar entre o vício e a obsessão, que resulta num desconfortável distanciamento dos que estão perto.

E produz outras cenas – igualmente desconcertantes – como aquela que se materializa na mesa de refeições da família:

Todos de cabeça baixa, falando por monossílabos, enquanto desenvolvem um longo diálogo tátil com quem não está ali.

Da cabeceira dessa mesa, me pergunto: quando passamos a dar mais atenção ao mundo virtual do que ao que está diante do nosso nariz?

Estamos a caminho de uma transformação radical das relações interpessoais?

Algumas questões precisam (e devem) ser respondidas, mas suspeito que só virão daqui a alguns terabytes.

Eis uma muito inquietante: será que as conversas de família aconteciam por absoluta falta de opção?

A verdade é que, agora que podem escolher, conversam com quem realmente interessam. E, para seu desgosto, você não está convidado a participar dessa prosa.

Outro fenômeno inquietante desse novo mundo é o imediatismo das respostas.

No já obsoleto e-mail, você tinha pelo menos 24 horas de prazo para responder.

As ferramentas de interação imediata, porém, exigem instantaneidade.

E ai de quem ignorar essa urgência!

Faça o teste e não responda a mensagem. Em poucos minutos, seu telefone irá tocar. Do outro lado, a primeira pergunta: por que você não respondeu no Whatsapp?

Adianta dizer que você veio de outra era? Do tempo em que as notícias eram entregues por carteiros sem pressa?

A menos que você queira ser confundido com um ser jurássico, invente uma desculpa melhor. E simplesmente tente se acostumar com o novo ritmo dessa nova era.

Imediata. Viciante. Obsessiva.

Só evite continuar olhando primeiro para o celular. Ou, um belo dia, só restará você e o dito cujo na cama.

E desconfio – apenas desconfio – que nenhuma tecnologia será capaz de substituir o prazer do touch humano.

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