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Ter ou não ter, eis a questão

Meu pai costumava dizer que riqueza é um estado de espírito. Contudo, mesmo vindo de onde veio, a vida me levou a cometer a ousadia de discordar dessa assertiva.

A felicidade é um estado de espírito. Riqueza é outra história. E não converge, necessariamente, com o mundo das sensações intangíveis.

Existem, por exemplo, muitos ricos miseráveis. A cidade está cheia deles. Sou, particularmente, amigos de muitos. E até me incluo neste roll com minhas sovinices.

E por que estou despudoradamente me ofendendo?

Porque estou defasado financeiramente.

Tomo um susto em cada esquina, em cada shopping, em cada experiência de compra.

Majoraram o mundo. E todas as coisas ganharam, subitamente, um novo valor. No mínimo duplicado.

Diante da explosão de preços, me converti à avareza. Não por mesquinharia, mas por contingência mesmo.

Nesta altura do campeonato, depois de tudo o que trabalhei e trabalho, a sensação é que não tenho a largueza financeira que esperava ter neste estágio da vida.

Recentemente, por exemplo, fui todo fagueiro a um shopping em São Paulo com uma ideia brincando na cabeça de presentear minha mulher. E tomado por essa boa intenção, entrei na loja de uma grife famosa por suas coleções de bolsas e perfumes.

O susto foi grande. O preço médio das bolsas expostas na vitrine oscilava na faixa de R$ 30 mil reais – equivalente ao custo de um carro popular.

Empacotei minhas intenções enquanto deduzia automaticamente que uma Ferrari (comercializada por R$ 1,5 milhão) era uma pechincha.

Pensando alto, enquanto procurava a porta de saída, ruminava:

– Quanto de couro tem nos estofados de uma Ferrari? Quantidade suficiente, com certeza, para fazer dezenas de bolsas dessas… Sem falar em todos os outros componentes – carenagens, motor… Definitivamente, uma pechincha!

A verdade é que, quando uma pessoa da minha idade e experiência empresarial se choca com os custos das coisas, das duas uma:

Ou os preços estão anormalmente caros. Ou estou anormalmente pobre.

Me sinto realmente miserável não só quando olho as etiquetas das lojas, mas sobretudo quando tomo conhecimento das cifras envolvidas na Operação Lava Jato.

Os números expostos no descortinamento do propinoduto da Petrobrás são realmente espantosos.

E olha que estou habituado, como homem de negócios, a grandes números.

A Lava Jato, porém, nos convida dia após dia a conhecer outros patamares da contabilidade financeira.

O último choque – confirmando meu estado de pobreza – veio com a definição do valor arbitrado para a fiança da empresária Mônica Moura, esposa do marqueteiro do PT, João Santana.

O juiz Sérgio Moro estipulou R$ 28 milhões. E – pasmem – eles tinham esse dinheiro disponível.

A quantia foi rapidamente paga para que Mônica pudesse voltar – sorridente – a enxergar a luz do sol.

Alguém neste país, que não seja um empresário de altíssimo nível, poderia pagar cash uma soma tão vultosa?

Acredito que poucas – muito poucas – empresas na Paraíba disponham de uma quantia dessas em caixa.

Estes números revelam – sem sombra de dúvida – que algo assustadoramente grande ocorre nos bastidores do País, sangrando a nação e asfixiando os brasileiros.

Eles perderam a referência de valores.

Eu também.

O consolo é saber que o verdadeiro enigma (e fortuna real) da vida não é ter ou não ter.

Sete décadas depois, mesmo reconhecendo a importância do ter, aprendi que importante mesmo, nesta jornada, é ser. E ostentar, entre idas e vindas, altos e baixos, um estado de riqueza do espírito.

Eis, definitivamente, a questão mister da existência humana.

Com ou sem carrões. Com ou sem grifes a tiracolo.

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