As secas espalham dores e mortes pelos sertões da região, mas são apenas infortúnios sazonais de uma tragédia maior: a saída do homem do campo.
Na verdade, ele não sai. É tangido por um modelo de desenvolvimento que direciona todos ao adensamento e que culminará com a concentração de dois terços da população mundial nas áreas urbanas até 2050, segundo relatório da ONU sobre perspectivas da urbanização mundial.
E o sertanejo está contido nesta matemática.
Sem conseguir se manter em suas terras, ele vem engrossando as correntes migratórias.
Na cidade, quando não é favelado ou sem teto, consegue uma casa em conjunto habitacional apinhado. E é aí que ele dá de cara com o novo mundo.
É apresentado ao transporte público e às morosidades do trânsito; ao medo da violência; a poluição e – principalmente – à má alimentação.
De fato, todo o seu regime alimentar é alterado. E, junto com ele, morre de inanição o estigma de que o sertanejo é antes de tudo um forte.
É forte lá, entre suas plantações e pequenas criações. Com seu leite e sua rapadura. Seu feijão macassa e sua farinha. Sua macaxeira e seu milho.
Mas, na cidade, saem de cena o feijão e as raízes arrancadas da roça – sem os agrotóxicos proibidos e abundantemente desejados nos hortifrutigranjeiros que degustamos na cidade.
Saem de cena as galinhas e seus ovos, porcos e bodes criados no terreiro, em volta da casa – a reserva saudável de proteína que anima a mesa do campo.
Entram em cena os fast foods de péssima qualidade e as gorduras trans, condimentos e conservantes dos alimentos ensacados.
A nutrição da cidade enfraquece o sertanejo.
Para completar o pacote de infortúnio, o sedentarismo faz a sua parte, tirando a energia e a resistência que pareciam inesgotáveis no manejar da enxada e nas léguas e léguas de caminhadas que fazem parte da rotina sertaneja.
E, infelizmente, não se enxerga em qualquer horizonte – campo ou cidade – disposição para alterar o fenômeno migratório, restituindo o direito do sertanejo de manter sua fortaleza.
Todos os serviços, as ações infraestruturais e os incentivos econômicos correm em direção aos grandes centros.
Em resumo, é para cá que corre o dinheiro. E atrás dele, todos nós.
Inclusive quem nunca precisou de muito para viver. Mas, sem opção, adere à sobrevivência urbana.
Sabendo, antes mesmo de subir nos paus de araras modernos, com tração nas quatro rodas, que a cidade é sua Kriptonita (com a licença poética de Joe Shuster).
Ele sabe – e nós também – que não se trata apenas de geografia. Na cidade, o sertanejo perde tudo: qualidade de vida, saúde e força.
Até sua alma.