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Um pouco a fingir

Decidi anteontem escrever para hoje sobre Glauber Rocha. Desisti no meio da tarde de ontem.

Não é pesado lembrar que os cronistas, articulistas, escritores em geral, não são seres de supremo equilíbrio, imunes às armadilhas da vida, sorridentes em tempo integral como se a Terra fosse um gigantesco globo de alegria. Eles são seres humanos, que adoecem, pagam contas, fazem trabalhos domésticos, têm fome de comida e de amor. Não importa: alegres ou tristes estão aqui, formando as populações, falando línguas diferentes, divididos em sistemas políticos seguindo regras de economias, em religiões mono e politeístas, em direção à hora final da aventura humana.

Mas, nós, escritores de textos diários, temos de proceder como médicos, professores, policiais, pilotos de avião. Não importa a sinusite, a gastrite, a tendência depressiva, nem se o dinheiro do mês acabou antes de pagas todas as contas. Não interessa se, na noite da véspera de escrever o próximo texto, estabeleceu-se a impossibilidade de uma plena relação afetiva ou se o casamento acabou depois de anos tumultuados, com o saldo de três filhos menores. São “bronca safada” os telefonemas anônimos com ameaças de violência e os emails com o mesmo teor enviados por “fakes”.

Os escritores cotidianos são os profissionais que mais intuitivamente colocam em prática os versos de Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é a dor a dor que deveras sente”. Na língua portuguesa, Pessoa foi o autor que mais demonstrou que sem filosofia não há poesia e vice-versa.

Cá estou, pilotando o avião, dando uma aula, prendendo um ladrão, fazendo uma cirurgia no esôfago de um paciente grave. É assim meu exercício de escrever. Às vezes, nele não importa o que aconteceu ontem, por mais doloroso que tenha sido. E como são grandes as dores do afeto…

Já que citei Fernando Pessoa e cá estou um pouco a fingir, lembro a última frase que ele escreveu. Foi em inglês: “I know not what tomorrow will bring”. Ou seja: “Não sei o que o amanhã trará”.

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