Começo com um pedido antecipado de desculpas por abordar hoje tema tão particular. Mas, mesmo correndo o risco de ser inconveniente, quero partilhá-lo. Porque, se não o fizer, me considerarei ainda mais solo.
Sei que a vida é construída por muitos momentos em que é preciso estar só. E isso faz parte da dinâmica de estar vivo. Nestes instantes, tudo depende unicamente de você.
Tenho alguns registrados em minha memória. Outros sei apenas que vivi, ainda que sem registros conscientes.
Meu primeiro momento solo foi, com certeza, o primeiro passo. Ato tão simples e ao mesmo tempo tão determinante, em que eu – pela primeira vez – dependia exclusivamente de mim para conquistar a autonomia (vide Armstrong e suas inspiradas declarações ao chegar a Lua e entender que ali dava “um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade”).
Aquela foi minha primeira grande aventura. E o começo dos muitos passos que daria ao longo dessa jornada, assistido por minha mãe Beatriz e minha mãe preta Cucuta, ex-escrava do engenho do meu avô que se recusou a sair mundo afora após a abolição.
Mais adiante, outros passos seriam dados. E jamais esquecerei o momento em que, sozinho, dei minhas primeiras pedaladas – já sem as rodinhas de proteção. Eu e a bicicleta no Parque dos Eucaliptos em Garanhuns – PE, cujos troncos figurariam, em minha história pessoal, como meus primeiros obstáculos. Tinha oito anos.
Dez anos depois, ocorreria meu primeiro (literalmente) vôo solo, a bordo do avião prefixo PT-GCO. Estava efetivamente sozinho – apenas com a bússola e o velocímetro.
Saí do Aeroclube de Pernambuco (o Encantamoça) em direção ao aeroclube de Campina Grande e, ato contínuo, ao aeroclube de João Pessoa, de onde retornei para Recife. A triangulação foi feita no visual, sem sequer auxílio de rádio. Solo mesmo!
Parecia desafiador e difícil?
Nada que possa se equiparar ao que me ocorreu neste último domingo, dia 18 (noves fora igual a zero). Em nenhum momento, ao longo dos últimos 68 anos, vivi vôo solo mais difícil – morre minha única irmã Celina.
Perdi, junto com ela, o último elo com o passado; o derradeiro com minha ascendência familiar.
O que tenho, a partir de agora, são os descendentes. E os amigos que construí.
Não posso mais olhar para traz e, por exemplo, me aconselhar com alguém da família. Pois não possuo mais ancestrais. Nem mesmo os colaterais. Todos se foram: avôs e avós, pais, tios e tias.
E, agora, minha única irmã.
Sei que estas desventuras não são exclusivas . Muitos, além de mim, receberam a missão de ser o último dos moicanos. E sabem bem – muito bem – que esta é uma condição difícil de administrar.
Como é doloroso, por exemplo, entender que não existe mais nenhum ser vivo, dentre os meus, para puxar minhas orelhas e aprumar meu rumo.
Agora sou piloto solo de minha vida.
Usando coração e mente como bússola e o amor dos que leguei ao mundo para me acompanhar nesta triste e solitária navegação.