Voo cego

16
COMPARTILHE

A aviação tem uma situação que chamamos de voo cego. Isto significa que o sujeito está lá em cima com visibilidade zero. E é guiado por instrumentos para poder seguir viagem e aterrissar em segurança.

Quando tirei meu brevê também passei por treinamentos das condições de voo cego – ou voo por instrumentos.

Naquela época não existiam os modernos simuladores de hoje. Mas dávamos o nosso jeito: os para-brisas eram totalmente cobertos para que o piloto pudesse treinar sem enxergar um palmo diante do nariz.

Aí a parafernália entrava em ação – checagem de velocímetro, altímetro, bússola e horizonte artificial. GPS, radar e transponder vieram depois. Os instrumentos faziam a sua parte, dando perfeita noção ao piloto sobre a situação da aeronave.

Como empresário, voltei a experimentar neste Brasil de hoje como é pilotar seu empreendimento em situação de voo cego.

Só que, diferente das situações que enfrentei na aviação, aqui embaixo essa experiência é vivida sem o auxílio de instrumentos. Ou com indicadores pouco confiáveis – o que, cá pra nós, é ainda pior.

Os instrumentos de aferição brasileiros estão confusos, imprecisos – mais turvam do que clareiam nossos horizontes. E pilotar uma máquina empresarial requer indicadores mínimos.

As incertezas travam até os mais corajosos.

E elas são inúmeras. A começar pela mais elementar: quem estará comandando o Brasil daqui a seis meses?

Mais: como estará a confiabilidade da nossa moeda quando o São João chegar? Ou como o mundo estará enxergando o País ao longo deste 2016?

Quem me conhece sabe que sou um otimista por natureza. Mas até minha confiança no porvir baqueia neste caminhar às cegas, tateando no escuro, seguindo apenas pela fé e pelo instinto.

Gostaria de iniciar o ano com mensagem mais positiva, mas faço a opção pela sinceridade. E, sendo absolutamente honesto, só uma alegoria explica de forma fidedigna como recebo este 2016: com a sensação de pular no escuro.

E pulamos. Mas sem ter noção – ou instrumentos que sinalizem – onde está o fundo desse poço em que lançaram o Brasil.

Em respeito à Legislação Eleitoral, o Portal Correio não publicará os comentários dos leitores. O espaço para a interação com o público voltará a ser aberto logo que as eleições de 2018 se encerrem.

Notícias mais lidas