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Campina Grande sediou uma das maiores micaretas do Brasil

Apesar de ser a terra do Maior São João do Mundo, Campina Grande, que completa 156 anos neste domingo (11), sediou, durante 18 anos, uma das maiores micaretas do Brasil. A saudosa Micarande, que aconteceu entre os anos de 1990 e 2008, é uma recordação presente na mente dos campinenses. Pelo caráter inovador para a época, aliado ao espírito festeiro da cidade, o evento ficou marcado no calendário turístico da região.

Animada durante todo o ano pelo forró raiz, a Rainha da Borborema parava em abril e se rendia aos embalos empolgantes do axé da Bahia, contemplado nos trios elétricos por atrações de sucesso, como Luiz Caldas, Chiclete com Banana, Asa de Águia, Banda Eva, Cheiro de Amor, Banda Beijo, Ricardo Chaves, Harmonia do Samba, Babado Novo, Daniela Mercury, entre outras. Além, claro, das atrações locais e não menos badaladas, como o caso do icônico Capilé.

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O início de tudo

Tudo começou no fim da década de 1980, quando um grupo de jovens campinenses, em visita à Bahia, se deparou com uma festa que, à época, já era tradicional, na cidade de Feira de Santana, onde trios elétricos desfilavam pelas ruas, imitando o que costumeiramente acontecia no carnaval da capital Salvador. Denominada de “Micareta”, a festa encantou aquele grupo de amigos que estava em visita, surgindo a ideia de levar aquilo para a Rainha da Borborema.

Retornando a Campina, o grupo decidiu espalhar a ideia e, por meio do publicitário Lucas Sales, o então prefeito na época, Cássio Cunha Lima, resolveu introduzir o evento no calendário da cidade, que aconteceu pela primeira vez, de forma extraoficial, em 1988, com apenas um dia de festa, guiada pelo bloco “Turma do Pinguim”.

Prévias da Micarande

Já em 1989, nas margens do Açude Velho,  a festa passou a tomar maiores proporções. Em uma grande prévia para o que viria a acontecer oficialmente no ano seguinte, dois blocos desfilaram na avenida: o “Galo de Campina”, capitaneado por Biliu de Campina e o “Balanço do Amor” que trazia Capilé como atração. O evento ocorreu no mês de abril, mais precisamente no dia 21, data que se repetiu ao longo dos anos.

Micarande

Cássio Cunha Lima vestindo a mortalha do Bloco ‘Galo’, primeira atração da Micarande (Foto: Reprodução/Acervo/CG Retalhos)

A festa

Tradicionalmente no mês de abril, a Micarande tinha quatro dias oficiais de festa, com início em uma quinta-feira e término no domingo. Entretanto, durante vários anos da festa, o Bloco Saci Teen fazia uma prévia um domingo antes da abertura oficial, sendo puxado pela banda baiana Harmonia do Samba, arrastando uma multidão de foliões da Avenida Brasília até o Parque do Povo. Também era tradição na segunda-feira após o fim da Micarande a saída do Bloco Zé Pereira, que tinha um trio elétrico puxado por bandas de frevo.

Atrações e blocos

Várias foram as atrações que desfilaram na Micarande. Divididos entre blocos, os artistas baianos eram os destaques de cada edição do evento. Dentre os blocos mais concorridos, destacavam-se o Spazzio, puxado pela banda Chiclete com Banana, o Batata, que tinha o Asa de Águia como atração, além do Uau!, Cerveja e Côco, Eva, Coyote Maluco, dentre outros.

Veja alguns desfiles

No canal do YouTube Retalhos Históricos de Campina Grande existem alguns vídeos de transmissões da TV Correio da Micarande. Seguem, abaixo, os desfiles das bandas Asa de Águia, Cheiro de Amor, Chiclete com Banana e Netinho, no ano 2000.

Cobertura da TV Correio

O Sistema Correio de Comunicação começou a fazer as coberturas da Micaroa, carnaval fora de época que acontecia na capital João Pessoa. Mas, em 1997, foi a vez da Micarande entrar na programação da TV Correio e permanecer até o fim, em 2008.

Repórter, comentarista e âncora, a comunicadora Sandra Macêdo desempenhou vários papéis durante todos os anos de cobertura da Micarande. Ela contou que era uma experiência única e que, pelo que se dispunha de tecnologia à época, era algo revolucionário.

“Inicialmente, entrávamos ao vivo no meio da programação, mas depois começávamos a fazer a cobertura completa a partir das 21h, com a transmissão indo até o fim do evento, que geralmente era quando passava a atração mais cobiçada, que era sempre a última a desfilar”, disse Sandra Macêdo.

Ela iniciou o evento fazendo as transmissões no meio da multidão, entrevistando foliões dos blocos e também da pipoca. Depois, passou a atuar como âncora, ao lado de Jota Júnior [in memoriam].

“Ficávamos ao vivo, no meio dos blocos, em cima dos trios, nos camarotes, na pipoca. E eu comecei fazendo algumas reportagens, no meio da galera e, depois, passei a ser âncora da Micarande, junto com Jota Júnior. Era um pingue-pongue muito bacana, visto que ficávamos o tempo inteiro comentando sobre as atrações, os desfiles dos blocos”, relatou a comunicadora.

“Era uma experiência única. A Micarande era um trabalho brilhante, pois conseguíamos fazer sem a tecnologia e o aparato que temos hoje. Então eu dizia que, se conseguíamos fazer aquilo ali, estávamos prontos para qualquer outra coisa”, completou.

Sandra Macêdo

Sandra Macêdo fazendo a cobertura da Micarande 2004 (Foto: Arquivo/Jornal CORREIO)

Capilé, um ícone da Micarande

É claro que as atrações principais e de maior destaque não só da Micarande, mas de todos os carnavais fora de época no Brasil, vinham da Bahia. Porém, na Rainha da Borborema, os precursores do evento eram da terrinha. Puxador do primeiro bloco do evento, Capilé tornou-se um ícone da festa, que mora no coração dos campinenses.

“Ainda em 1989, fizemos uma espécie de prévia da Micarande, quando saíamos com o Trio Alegria, quando visitávamos os bairros de Campina Grande. Até que veio a Micarande em 1990, onde tinha um trio elétrico da prefeitura, que puxava vários blocos, inclusive o Galo de Campina, que Biliu de Campina puxava. Mas o primeiro bloco oficial da Micarande, com cordão de isolamento e venda de “mortalhas”, foi o Balanço do Amor, do qual nós fomos os fundadores. Logo no primeiro ano, saímos com mais de 4 mil foliões”, disse Capilé.

Introdução das atrações baianas

Capilé explica que, já no segundo ano da Micarande, foram introduzidas as bandas da Bahia no evento. Ele contou que, após o sucesso do evento em 1990, se encontrou com Bell Marques, ex-vocalista do Chiclete com Banana, que perguntou sobre a festa, se tinha sido boa. Logo quando Capilé contou sobre o sucesso do evento, o baiano se interessou e disse que colocaria o bloco Spazzio no ano seguinte para desfilar na avenida.

“Eu me lembro que eu estava conversando com Bell [Marques] no hall do Hotel Serrano e ele me perguntava como tinha sido o carnaval. Eu disse que tinha sido um sucesso, que tínhamos vendido mais de 4 mil abadás, que na época ainda eram as mortalhas. Então, ele disse: ‘vamos colocar o Bloco Spazzio no próximo ano'”, relatou.

Capilé lembra do evento com saudades, afirmando também que, apesar da folia, a Micarande era muito importante para aquecer a economia da cidade, fomentando empregos, mesmo que temporários, e também ajudando os vendedores autônomos e ambulantes.

“Essa saudade dos carnavais fora de época, de um modo geral, é muito grande. A essência do carnaval é uma festa muito bonita e é um evento que movimenta a economia das cidades, pois tem a confecção das camisas, os ambulantes, os patrocinadores, camarotes. Então, é uma cadeia produtiva muito grande que esse tipo de evento atrai”, disse Capilé.

Redes sociais marcam saudades do evento

A Micarande, de fato, deixa saudades em todo folião não só de Campina Grande, mas de todo o Brasil. A página Micarande Saudades, no Instagram, conta com um acervo de fotografias enviadas por foliões que curtiram o evento durante os anos. É um espaço de interação e de lembranças que, com a tecnologia, se perpetuou nas redes sociais.

 

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*A reportagem utilizou relatos históricos disponíveis no CG Retalhos, site que mostra curiosidades da história de Campina Grande. Nele, há um vasto acervo sobre a Micarande, desde a estreia extraoficial, até a última edição, que aconteceu em 2008.

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