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‘Disciplina positiva’ usa gentileza e auxilia na criação dos filhos

Provavelmente os pais que nasceram em outro século se chocariam com o que psicólogos, educadores e os novos pais estão colocando em prática: um novo tipo de criação que exclui a violência e o autoritarismo e foca no respeito e gentileza – sim: gentileza! A disciplina positiva é embasada em estudos de comportamento dos psiquiatras (nada jovens) Alfred Adler (1870) e Rudolf Dreikurs (1897) e é considerada por muitos pais, que querem fugir dos extremos violência/permissividade, como o “caminho do meio”.

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“Se pudéssemos resumir em uma frase, diria que a base da Disciplina Positiva é o respeito mútuo. Ela também pode ser considerada um caminho do meio entre os outros dois modelos existentes: autoritarismo e permissividade. No autoritarismo temos um excesso de firmeza, ordem e regras, e exclusão da perspectiva da criança, enquanto na permissividade a criança não tem direcionamento ou limites, de modo que nesse modelo a criança é protegida da frustração. A disciplina positiva, por sua vez, afirma que a união da firmeza (limites e orientação) com a gentileza (incluir a criança, considerando-a um ser único dotado de pensamentos, expectativas e sentimentos próprios) seria o caminho para uma relação baseada no respeito mútuo”, explica a psicóloga Beatriz Amorim.

Uma das ferramentas da disciplina positiva é oferecer à criança escolhas limitadas em momentos de tensão. “Pense naquele momento do dia em que é necessário o banho, mas ele não está nos planos da sua criança. No autoritarismo a criança ‘não tem que querer, porque eu estou mandando’ e ela pode ser arrastada, ameaçada e chantageada para que faça o que o adulto ordena. Na permissividade, a criança não teria limites ou regras, de modo que poderia ficar sem o banho. Na Disciplina Positiva, seria oferecida uma escolha limitada, ou seja, uma escolha que esteja dentro dos limites pré-estabelecidos pelo adulto. ‘Filho, você prefere que a mamãe te dê banho ou o papai?’; ‘Quem levaremos para tomar banho hoje, a princesa ou o gatinho?’; ‘O que faremos hoje durante o banho, cantar ou dançar?’ e inúmeras outras escolhas que você poderia oferecer à criança para que ela se sinta parte do processo, pois quando nos sentimos acolhidos e ouvidos, cooperamos mais, em qualquer idade”, assegura.

“O primeiro impacto de uma educação com gentileza seria uma mudança
individual. Uma criança que teve como base uma educação pautada no respeito
mútuo conseguirá, provavelmente, regular-se emocionalmente, pois aprendeu a
reconhecer e a validar suas próprias emoções. E ao compreender as próprias
emoções e lidar com elas de forma assertiva e não-violenta, tal modo de reagir
repercutiria nas relações sociais de forma geral. Conhecendo primeiro a si mesmo,
haveria muito mais empatia e compaixão pelo próximo, além de um forte senso de
coletividade, o que contribui para formar um bom cidadão”

Beatriz Amorim

Exemplo na sala de aula

Uma turminha cheia de energia prepara uma deliciosa salada de frutas. Banana, mamão, manga e morangos estão no cardápio. As pequenas mãozinhas preenchem os copos com um ingrediente especial: gentileza. A sobremesa foi servida esta semana, em comemoração ao dia da gentileza, durante uma partilha de lanches por alunos do ensino
infantil aos funcionários de uma escola bilíngue de Campina Grande. Foi para o porteiro, para a secretária, para a moça da limpeza e para os professores que a delícia foi feita.

O projeto é maior que a salada de frutas e teve início há três anos, quando alguns pais e a psicóloga da escola decidiram que era hora de trabalhar valores com as crianças. A coordenação pedagógica lançou então o Character Education (Educação de caráter, em tradução livre), que tem o objetivo de criar um ambiente escolar humanizado, apostando em trabalhar no dia a dia os conceitos de respeito, gratidão e justiça.

De acordo com Roberta Montenegro dos Santos Pordeus, psicóloga da escola e facilitadora do projeto, o trabalho começa antes do recreio. “Os professores trabalham em sala de aula temas como respeito, solidariedade, responsabilidade, generosidade, entre outros e a escola culmina o projeto com ações que também envolvem os alunos, como comemorar o dia da paz e árvore plantando a árvore, campanhas de doações e de ajuda ao próximo”, conta.

Para Roberta, iniciar esse aprendizado ainda na infância impacta a sociedade para um futuro mais gentil e de paz. “Acreditamos que valores como respeito e solidariedade, por exemplo, são sementinhas que vão brotando à medida que cuidamos delas, incentivando seu crescimento e assim as vendo-as florescer. É nesse sentido que percebemos que mesmo os pais pequenos podem e devem ser estimulados a desenvolverem esses valores, para que no futuro eles possam divulgar esses mesmos valores para seus filhos e modificar nossa sociedade”, acredita.

Gentileza ressinificada

Gentileza, substantivo feminino, descrito no Michaellis como “qualidade de gentil”, “ato de delicadeza” ou “ação de grande distinção” foi ressignificada pela professora de redação Samelly Xavier. Há dois anos, ela movimentou pessoas a se voluntariarem para criar um ambiente de acolhimento a candidatos ao Exame Nacional do Ensino Médio que vinham de escolas públicas.

A repercussão após o primeiro ano de iniciativa das chamadas “Tendas Solidárias” foi tão grande que no ano seguinte, a professora conseguiu cem voluntários para participação em sete locais de prova de Campina Grande. Água, lanchinhos, caneta, exercícios de respiração para aliviar a ansiedade e (o melhor de tudo) abraços eram distribuídos para os candidatos.

Para quem trabalha há muito tempo com o português, ressignificar essa palavra foi fácil. Não pelo português, mas pelo uso frequente do atributo. “Vou ser bem cafona e dizer que gentileza é empatia. Essa palavra da moda que nada mais é do que se colocar no lugar do outro. Ninguém calça o chinelo de ninguém, é claro, mas pelo menos pode-se tentar usar a máxima bíblica de amar o outro como a si mesmo. Se a gente levasse isso ao pé da letra, o mundo seria maravilhoso!”, acredita.

Foi em um momento de fragilidade emocional, após a perda da mãe, que Samelly entendeu que precisava intensificar isso. Para ela, essa tal de gentileza está em coisas tão simples e gratuitas, como um cafuné.

“Fundamentalmente uma pessoa só é gentil, se ela não for egoísta. Essas palavras são antagônicas. Se você não consegue ser capaz de olhar para as necessidades do outro e se compadecer da dor do outro, da necessidade, da vontade do outro, se você fica “ensimesmado” ali no seu mundinho, não tem como ser gentil. Eu fui criada para perceber a dor do outro, e depois que a minha mãe faleceu, eu senti na pele rasgada o quanto era importante alguém chegar e fazer qualquer coisa em um momento desses: um abraço, um cumprimento, um carinho na cabeça. Tudo é muito valido quando você não está bem. A vida passa muito rápido para eu não olhar para o outro como semelhante”

Samelly Xavier

O que diz a ciência sobre gentileza

De acordo com o neurologista Ednaldo Marques, ser gentil é capaz de produzir boas reações químicas para o sistema nervoso. Ou seja, a tese de que fazer o bem para o outro é fazer para si mesmo, é provada por quem estuda o comando do nosso corpo: o cérebro. “Existem substâncias químicas no corpo cujo nível no sangue se modifica com diversas circunstancias, inclusive de acordo com o estado emocional da pessoa.

Algumas dessas substâncias são os neurotransmissores, que servem para comunicar os neurônios entre eles. Dois dos grandes neurotransmissores responsáveis pelo bem estar, ânimo, vontade e bom humor são serotonina e dopamina. Elas se encontram em nível mais alto no cérebro e aumentam quando a pessoa se encontra em condição de bem estar”, explica.

“Imaginamos que nossa constituição física quer dormir demais e comer carboidrato, quando na verdade nossa constituição física mais elevada quer é ser forte, e para ter mais bem-estar real é preciso comer bem e ser ativo fisicamente. Assim como na nossa constituição emocional. Às vezes a gente imagina que não é preciso disciplina ou diplomacia e que nossas emoções precisam vibrar demais. Ou seja, ‘quando eu tenho raiva não é pra ser raiva, é para ser ódio. Quando eu estou feliz, não é pra ser felicidade, é pra ser euforia’. Mas não é assim. O que nosso ‘eu emocional’ elevado quer é ser estável emocionalmente. Quando eu faço bem aos outros, é automático que eu sinta bem estar. Sendo gentil, generoso, paciente, disciplinado e socialmente hábil é natural que haja autor realização e bem estar, aumentando serotonina e dopamina. Fazer ao bem aos outros é inteligente para si próprio”, garante, o médico especialista.


* Texto de Renata Fabrício, do Jornal CORREIO.

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