Moeda: Clima: Marés:
Início Notícias

‘Ecos da Jovem Guarda (I)’, por João Trindade

Parece que foi ontem. O Cine Eldorado, lotado, no Festival da Alegria (não me lembro se era bem esse o nome). Eu, vestido de “rei”, no trono, uma túnica vermelha, e o locutor (seria Amaury de Carvalho?) anunciando os prêmios que eu iria ganhar por haver “derrubado” todos os calouros daquela manhã e por isso estava sentado naquele “trono”. Os prêmios: um anel do calhambeque, certa quantia em dinheiro (doada pelo Banco Industrial de Campina Grande) e um bolo (na verdade, pão-recife).

Mas o maior prêmio mesmo para mim foi passar a ser conhecido em Patos. Eu, menino de apenas seis anos, havia conquistado a cidade. Por onde passava, era alguém parabenizando pelo fato de haver cantado tão bem a música “Você Me Acende”, de Erasmo Carlos; este, até hoje, meu ídolo.

Era a glória. Patos passava, a partir dali, a me reconhecer como um grande cantor-mirim, páreo para Euclides Franco (irmão de Edileuson Franco), que, na semana anterior, ganhara o “reinado”, interpretando a música “Mexericos da Candinha”.

Eram os áureos tempos da “Jovem Guarda”, que, mesmo na longínqua e pequena Patos,
Incendiava as plateias. O “Festival da Alegria” realizado todos os domingos, pela manhã, no Cine Eldorado, e transmitido pela Rádio Espinharas, era diversão obrigatória na cidade e o celeiro do surgimento de novos artistas.

Embalados pelos conjuntos “Os Jovens” e “Os Selvagens”, realmente vivemos uma época de descontração, para compensar um pouco as austeridades do professor Messias, este, diretor do Colégio Estadual de Patos. Lá, no tempo de messias, quem fosse posto para fora de sala era suspenso por três dias. Certa vez, tive que passar 50 minutos (uma aula inteira!) dentro de um banheiro, fétido e imundo, na única vez em que fui posto para fora de sala, injustamente, pelo carrasco professor de Português Antônio Batista.

Mas voltemos ao Cine Eldorado.

Eram homéricas as minhas brigas com Rodrigues, guitarrista de “Os Jovens”, por causa da bateria de Castelo (este, de “Os Selvagens”). Rodrigues sabia, mas não queria admitir, que Castelo (mais tarde, baterista da Orquestra Sinfônica da Paraíba) era melhor do que Toinho, de “Os Jovens” Por outro lado, eu magoava, mesmo sem falar, o meu amigo Juca (líder de “Os Selvagens”) que havia me dado de presente um pequeno violão (o primeiro presente que recebi em Patos) pelo fato de ele notar que eu gostava mais de “Os Jovens”.
A rivalidade era grande entre os dois conjuntos. Melhor para a gente que frequentava o Eldorado; era a garantia da execução perfeita para “O Milionário”, de “Os Incríveis”.

O “Festival da Alegria” tinha de tudo. Tinha Zeti, com as palhaçadas dele; tinha o “Festival de Calouros” (ponto alto da festa); tinha “Os Jovens”; “Os Selvagens”; “Z Sete” (este, um pouco mais tarde, numa época mais recente); tinha Amaury de Carvalho, Virgílio Trindade, Saraiva e tinha O MUDO DO CINEMA, que era quem encerrava a festa: o único mudo, no mundo, que cantava. A galera vibrava e esperava, ansiosa, a hora de o mudo cantar.

Todos queríamos imitar Roberto Carlos. Eu passava horas no espelho, sonhando com o dia em que meu cabelo ficasse como o de Roberto Carlos. O meu sonho era ter cabelo grande, mas minha mãe jamais deixaria; meu cabelo era cortado, por ordem de minha mãe, “alemão”. Deixei de usar o anel do calhambeque. De que adiantava o anel do calhambeque sem o cabelo grande? Outra coisa que eu queria usar, mas minha mãe nunca deixou, era sapato sem meia. Tinha uma inveja danada de Eri, meu “rival”, num pseudonamoro que eu, na minha ilusão, iria ter com Waldízia, filha de Dudu Viola, minha primeira e prematura paixão (eu devia ter uns dez anos e ela, oito).

publicidade
© Copyright 2026. Portal Correio. Todos os direitos reservados.