
Os Estados Unidos consideram as facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e “Organizações Terroristas Estrangeiras”. Na noite desta sexta-feira (29), os dois grupos de crime organizado entraram na lista do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros dos Estados Unidos, ligado ao Departamento do Tesouro norte-americano, onde são descritos como “Grupo Terrorista Transnacional; Tipo de alvo: Organização Criminosa [SDGT]”. A decisão já havia sido anunciada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, na rede social X.
A classificação de Organização Terrorista Estrangeira, por sua vez, é conhecida pela sigla FTO (Foreign Terrorist Organizations). Trata-se de uma lista que reúne grupos estrangeiros acusados de envolvimento em terrorismo ou considerados capazes de praticar esse tipo de ação. Também estão incluídos aqueles considerados ameaças à segurança dos EUA.
Hoje, 94 grupos são classificados como terroristas pelos Estados Unidos. Entre eles estão o Estado Islâmico, Hamas, Hezbollah e Al-Qaeda. As inclusões mais recentes na lista foram a Irmandade Muçulmana do Líbano e a Irmandade Muçulmana do Sudão, ambas adicionadas em 2026.
Veja:
Primeiro Comando da Capital and Comando Vermelho are two of the most violent criminal organizations in Brazil. Their reach extends throughout our region and into our country.
Today, I designated these organizations as Foreign Terrorist Organizations and Specially Designated…— Secretary Marco Rubio (@SecRubio) May 28, 2026
Até o momento, as ações estão restritas ao PCC e ao CV. Cabe a Rubio, em consulta com o procurador-geral e o secretário do Tesouro, oficializar as classificações.
A avaliação é de que a medida tenha sido aprovada pelo presidente americano, Donald Trump, e discutida entre os principais integrantes do governo antes de ser anunciada.
O presidente americano ainda não se manifestou sobre a decisão envolvendo as facções brasileiras.
A classificação de Terroristas Globais Especialmente Designados entrou em vigor imediatamente após o anúncio. Não é necessário, portanto, que ela passe pelo Congresso americano.
No caso da inclusão na de Organizações Terroristas Estrangeiras, o Congresso é formalmente notificado e tem sete dias para revisar a decisão, sendo 5 de junho o prazo final. Caso o prazo expire sem bloqueio parlamentar, a classificação é publicada no Diário Oficial do governo americano e entra em vigor.
Mesmo após a designação, o status não é necessariamente permanente.
A organização classificada pode recorrer à Justiça americana no prazo de até 30 dias após a publicação da decisão. O caso é analisado pelo Tribunal de Apelações dos Estados Unidos para o Circuito do Distrito de Columbia.
Além disso, a lei prevê mecanismos de revisão:
Enquanto isso não ocorre, o enquadramento continua produzindo efeitos legais e financeiros, reforçando o isolamento internacional da organização.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou resistência à decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. A principal preocupação do Palácio do Planalto envolve questões de soberania nacional e diferenças entre a legislação brasileira e a americana.
Um dos receios é que, em uma situação extrema, Washington utilize o argumento do combate ao terrorismo para justificar operações em território brasileiro, como já ocorreu em outros países ao longo dos últimos anos.
Hoje, o PCC e o Comando Vermelho são classificados como organizações criminosas pelo governo brasileiro, uma vez que suas atividades estão voltadas principalmente para o tráfico de drogas e outras práticas ilícitas, sem apresentar uma motivação ideológica — critério geralmente exigido para o enquadramento como terrorismo. No último dia 7, Lula se encontrou com Trump na intenção de desarmar essa e outras medidas americanas que impactariam o Brasil.
Após o anúncio de Rubio, o assessor-chefe da Assessoria Especial da Presidência, Celso Amorim, reagiu em nota. Segundo ele, a ação da Casa Branca não pode ser um pretexto para uma intervenção americana sobre o Brasil.
“Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”, afirmou.
Já o governo brasileiro emitiu uma nota em que critica a designação das facções como grupos terroristas. “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores (…). Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”, diz o comunicado.
O Executivo ressaltou que o combate às organizações criminosas “continuará sendo prioridade do Estado brasileiro”.
A inclusão de um grupo na lista de terrorismo dos EUA costuma gerar estigmatização internacional e pressão para que outros países adotem medidas semelhantes.
O objetivo é reduzir a capacidade financeira e operacional da organização, dificultando transferências de recursos e parcerias com empresas ou indivíduos.
Esse isolamento também amplia a cooperação internacional no combate ao financiamento do terrorismo.
A medida vem após a reunião entre o pré-candidato à Presidência do Brasil Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Trump, no último dia 26. Após o encontro, o comunicador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, afirmou que a classificação das facções brasileiras como terroristas foi um dos pontos em pauta entre os dois políticos.
Nas redes sociais, Flávio Bolsonaro celebrou a medida ao compartilhar a publicação de Rubio. Na postagem, o senador escreveu “Grande dia”, expressão que ficou marcada durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro.
Os deputados Eduardo Bolsonaro e Carlos Bolsonaro também republicaram o comunicado e fizeram agradecimentos direcionados a Flávio.
O governo brasileiro, por sua vez, criticou a família do ex-presidente, afirmando, em nota, que “é deplorável que, mais uma vez, integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país”.
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