Em 1978, oriundo da Rádio Correio da Paraíba, cujo prédio era quase vizinho (Rua Barão do Triunfo), ingressei no Jornal Correio da Paraíba.
Lá, menino assustado (eu tinha 21 anos!) fui apresentado ao chefe de redação: Júlio Santana. Ele me mandou “cobrir” a formatura dos alunos da Universidade Federal da Paraíba. E me chamou a atenção: “Quero uma cobertura completa, mas principalmente um resumo dos discursos do reitor e do orador geral; traga só o principal do que disse cada um”. Fui lá; lápis e papel à mão, ao lado do fotógrafo. Quando cheguei, que terminei de redigir a matéria, ele olhou, demoradamente, o material e disse: – “Pode esquecer; já tínhamos os dois discursos aqui; isso foi um teste”. E me deu um texto, que eu deveria entregar, resumido e com redação própria, num espaço exíguo de tempo (o jornal já iria “fechar” dali a pouco). Até hoje, agradeço a Júlio essa lição de vida e esse exercício de síntese, que me são de grande valia, até hoje.
Naquela época, as coisas eram bem mais difíceis para os redatores, porque o jornal era impresso em tipografia e até os títulos tinham as linhas contadas; e o número não poderia exceder, nem faltar (“Título: 2 linhas, de 20 toques”: um exemplo, apenas). Sinceramente: era mais fácil redigir o texto do que o título.
No jornalismo da época, os repórteres não redigiam a notícia; entregavam ao “copydesk” e este dava a redação final.
Fui, então, contratado e fiquei com a função de redator de notícias locais (“copydesk”) e um artigo diário na página de Esporte.
Com poucos dias de “casa”, fui chamado à sala do editor-geral, João Manuel de Carvalho. Não é necessário dizer que fui tremendo.
Ao chegar lá, o alívio:
– Colega (ele tratava todo mundo assim; o tom modificava, conforme fosse elogiar ou criticar), chamei você aqui para dizer que estou gostando muito dos seus artigos; deu uma nova roupagem à página de Esporte. Mas só tem um problema…
(Tremor, novamente).
– Você é jovem, escreve numa linguagem direta; mais agradável, mais moderna, porém continua com alguns vícios da crônica esportiva tradicional.
(Ia dizer: “Como assim?…”. Mas, graças a Deus, a voz não saiu).
– Você chegou agora; representa o novo. Não repita essa linguagem esportiva horrorosa, cheia de perífrases. Colega, não diga: “Morada do Sol”; diga: Patos; não diga: “Galo da Borborema”; diga: Treze.
Espero que siga meu conselho.
Saí da sala do “chefe”, feliz e aliviado.
A maior alegria minha nesse período de Correio foi quando vi uma chamada de primeira página redigida por mim. A matéria principal também era minha. Pena que, na época, não se colocava o nome do autor nas matérias de reportagem; só nos artigos e colunas: foi quando o Guarany de Campinas sagrou-se campeão brasileiro do ano de 1978. Passei o campeonato todinho torcendo pelo Guarany, embora desde menino seja torcedor do Flamengo, por dois motivos: o fato de o time ser do interior (o primeiro time do interior de estado a ganhar um título nacional) e o desempenho da equipe ter sido realmente muito bom.
Despedi-me do Correio, no fim de 1978, e fui para O NORTE, de onde, infelizmente, um ano depois troquei o “batente” das redações pelo magistério em cursinhos.
A VOLTA COMO COLABORADOR
Sempre fiquei “roendo” por não escrever em jornal e arrependido de haver deixado o “batente”; embora, àquelas alturas, apesar de estar no início da carreira, já ser reconhecido como um dos maiores professores de literatura brasileira, da paraíba. Até que, em 1983, meu amigo e crítico musical Ricardo Anísio, na época editor do 2º caderno do Correio (este, agora, já na Pedro II), chamou-me para escrever uma coluna diária sobre literatura. Aceitei, de pronto. O editor, na época, era Rubens Nóbrega, a quem não conhecia e, mais tarde, tornou-se (e é até hoje) um dos maiores (e melhores) amigos que tenho. A coluna, no entanto, só durou um ano.
O BOM COLABORADOR E EX-FUNCIONÁRIO À CASA TORNA
Em 2003, convidado por Lena Guimarães, volto a colaborar no CORREIO, dominicalmente, com uma coluna sobre Língua Portuguesa e que, depois, ficou, após muita insistência minha, aberta também a outros temas, onde estou até à atualidade.
Só que, em 2018, minha querida conterrânea e editora-geral Sony Lacerda, por quem tenho verdadeira veneração, resolveu me transferir, em definitivo, para o Portal Correio, sob a batuta de Nice Almeida, outra figura de fineza e classe ímpares, onde escrevo até hoje; agora, sob a editoria de uma pessoa formidável (desculpem tantos adjetivos; mas é que esse pessoal é demais…) chamada Alisson Correia.
Mas o Impresso nunca saiu do meu coração, como um amor que não se acabou; apenas se foi, no infinito de águas que sempre ficarão. Quando resolvi escrever essa despedida, lembrei-me do título de um livro: “Enterrem Meu Coração na Curva do Rio”; daí a intertextualidade que nomeia esse artigo embebido em lágrimas.
João Trindade