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Chico Limeira foi premiado no festival (Foto: Divulgação/Thercles Silva)

Música premiada chama ex-presidente de trapaceiro e vira polêmica

De um lado, autor defende liberdade de expressão; do outro, críticos que falam em levar a discussão para a ALPB e TJPB

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A música ‘Imprópria’, do compositor paraibano Chico Limeira, vencedora do Festival de Música da Paraíba, está em meio a uma polêmica. De um lado, há quem acuse o autor da canção de desrespeito a figuras públicas, como por exemplo o ex-presidente do Brasil, o paraibano Epitácio Pessoa. Do outro, o próprio compositor e vários artistas do estado que alegam cerceamento da liberdade de expressão. Ouça a música abaixo:

Em um dos versos da letra, Chico refere-se a Epitácio e ao ex-governador da Paraíba nos anos 40 Ruy Carneiro como trapaceiros. Para ele, a ideia da música não era fazer uma crítica especial para uma figura específica, e sim para uma prática antiga que ele considerou como ultrapassada, de dar nome de pessoas públicas a lougradouros da cidade, esquecendo das pessoas comuns que fazem e constroem o cotidiano do município.

“Eu fico muito feliz com a repercussão. Orgulhoso, mas ao mesmo tempo admito que fico com medo por conta das oligarquias, coronelismo que ainda imperam. Todo dia tem uma elite, fazendo um cerceamento, querendo intimidar para que não toque. Mas quanto mais estão fazendo isto, mas o público geral está se voltando contra ele. A musica não é uma critica a Epitácio, é uma critica à ultrapassada mania de dar nomes de logradouros a figuras famosas  e povo não é representado. A ideia é exaltar este povo normal, a gente da Paraíba”, explicou.

Por outro lado, o jornalista Wills Leal considera a letra como pejorativa, anti-cultural, anti-histórica. Segundo ele, o autor deveria reconhecer que houve um erro e alterar o adjetivo dado a Epitácio Pessoa, o qual ele classificou como maior paraibano de todos os tempos. Ele ainda afirmou que estava circulando um abaixo-assinado para que a premiação fosse reconsiderada.

“Acho que cada um tem seu direito. Sou defensor da liberdade, não sou favorável à censura. Mas em pelo menos quatro dos meus 25 livros, eu fiz correções. Eu mudei de ideias, adjetivos. Errar é humano. O autor da música também pode errar, com errou o corpo de jurado ao não examinar a letra, deveria ter chamado a atenção para o problema da letra, porque é pejorativa, é anti-cultural, anti-histórica. Eu reconheço que a gente erra, é humano”, disse.

Wills ainda informou que na próxima quarta-feira (28) haverá uma reunião no Tribunal de Justiça da Paraíba, onde o desembargador Marcos Cavalcanti deverá propor ao pleno do TJ que o Poder Judiciário se manifeste sobre o caso. Ele também informou que já há a movimentação de três deputados da oposição que irão se reunir com o presidente da Assembleia Legislativa, Gervásio Maia, para que a Casa também se pronuncie.

Chico afirmou que não vê problema em debater com as pessoas que se opõem à música. Porém, ele afirma que tudo tem que ser no campo das ideias. Ele também disse que ainda está tentando entender toda a polêmica.

“Se a gente gerar um debate no campo das ideias, vamos debater sobre isso, com o contraditório. No campo das ideias, ele vai lá e me ensine e faça uma música dizendo que Epitácio é isso ou aquilo. Mas não com violência, seja ela de qualquer tipo. Eu faço questão de debater com quem acha o contrário. Que o debate seja no campo das ideias. Quero acreditar que não há censura. Isso vai mexendo minha cabeça. Minha cabeça está um turbilhão. Até o fim de semana, devo digerir melhor tudo”, disse.

Classe artística se manifesta

Se por um lado Wills Leal está contando com forças como o TJ e Assembleia Legislativa, Chico não pode se queixar de apoio. Em sua página em uma rede social são inúmeras as manifestações favoráveis a ele. Artistas como Milton Dornelas, Wister Silva, Adeildo Vieira, Pedro Índio Negro, Titá Moura, Val Donato, Yuri de Carvalho, Toni Silva, entre outros prestaram suporte ao compositor.

Um dos defensores foi o secretário de cultura da Paraíba, Lau Siqueira. Em rede social, ele se manifestou através de um texto intitulado ‘Censura Nunca Mais’.  Na postagem, ele afirma que Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba não irá acolher solicitações para a retirada de determinados termos na música de Chico.

“Chico venceu o festival com legitimidade. Todo o júri era de fora. Outras músicas de igual qualidade poderiam ter vencido, já disse mil vezes. O argumento para cancelar a premiação, poderia estar justificado em alguma irregularidade. No entanto o autor das ameaças, tenta se justificar pelo autoritarismo e pelo obscurantismo. Ainda que alguns tentem colocar panos quentes, o que está posto é de extrema gravidade e merece todo o nosso repúdio”, escreveu, finalizando o texto com a frase: “Vamos resistir”.

Funesc se posiciona

A Fundação Espaço Cultural da Paraíba (FUNESC) se manifestou através de sua assessoria de imprensa. A fundação explicou que ainda não foi notificada oficialmente sobre qualquer reclamação acerca da música.

“A fundação não foi notificada de nada. Outra cosia a se destacar, é que desde o começo, tudo foi tratado com a maior clareza e transparência. Vale ressaltar, o respeito que a Funesc tem pela equipe de curadoria que escolheram as musicas e pela comissão julgadora, que avaliou os artistas. A comissão é compostas por pessoas de fora do estado da Paraíba. Foram cinco integrantes. E o mais forte de tudo é o respeito pela liberdade da expressão artística”, divulgou.

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